quarta-feira. 28.09.2022
Escola Básica 1,2 Dr. Francisco Gonçalves Carneiro.
Escola Básica 1,2 Dr. Francisco Gonçalves Carneiro. | FOTO: Cátia Portela.

O regresso dos alunos às aulas neste novo ano letivo em Chaves está a causar constrangimentos em algumas escolas, como é o caso da Escola Dr. Francisco Gonçalves Carneiro que este ano recebeu os alunos do 1º. ciclo das Escolas de Casas dos Montes e de Vale de Anta. Falta de funcionários e professores, realização de obras no estabelecimento de ensino, inexistência de manuais e falha na organização das turmas motivaram um abaixo-assinado por parte dos pais e encarregados de educação.

Por causa da falta de funcionários, os pais dos alunos do 1º ciclo não conseguem deixar as crianças antes das 9h na escola e são ainda “obrigados” a buscar os filhos às 16h, uma vez que depois desse horário deixa de existir funcionários que possam tomar conta dos mais pequenos, não tendo ainda entrado em funcionamento as Atividades de Enriquecimento Curricular (AECs).

A escola “está caótica”, refere a mãe de uma aluna do 4º. ano, revelando que questionou a coordenadora sobre o facto de ter de deixar o emprego para vir buscar a filha e que a mesma lhe disse que essa situação teria de ser resolvida com o município.

As crianças que utilizam os transportes escolares têm também de ficar à espera dentro do autocarro “mais de 20 minutos” até que “cheguem as 9h para poderem entrar na escola”.

Já sabíamos que a falta de professores iria acontecer independentemente da escola onde estivessem, no entanto há coisas que são insustentáveis”, lamenta Sónia Gonçalves.

"Isto é passar de cavalo para burro"

As respostas são sempre as mesmas: a culpa não é deles, a culpa é do município”, acrescenta.

Outra situação apontada por esta mãe é a localização da sala onde a sua educanda tem aulas:A sala da minha filha, em particular (4º. B), está colocada num segundo edifício junto do 2º. ciclo”, ao contrário das restantes turmas do 1º. ciclo.

Sónia Gonçalves lembra ainda que o agrupamento prometeu aquando do encerramento da Escola de Casas dos Montes que “as crianças iriam ter todas as condições e que poderíamos estar tranquilos”, contudo “isto é passar de cavalo para burro”.

Na escola antiga “também só havia dois ou três funcionários, mas eles mantinham-se lá até às 17h30. São exatamente os mesmos funcionários que transitaram para aqui”. Porém, explica, “aqui não têm condições para ter as crianças juntamente com o 2º. ciclo”, uma situação que na sua opinião deveria ter sido precavida.

Na segunda-feira muitos dos alunos que regressaram à escola não tinham ainda livros. De acordo com estes pais a situação deveu-se a uma falha “na organização dos vouchers por parte do agrupamento”.

Alunos com necessidades educativas especiais sem apoio

Estes pais referem ainda que numa das turmas, com 24 alunos, existem duas crianças com necessidades educativas especiais e outra ainda com dificuldades ao nível da língua, uma vez que veio recentemente da Suíça, existindo apenas uma professora responsável para toda a turma.

Sabemos que a turma não pode exceder os 20 alunos quando existem meninos de educação especial. Neste caso, o que nos foi dito é que a culpa é do Ministério”, conta Sónia Gonçalves.

A realização das obras no estabelecimento escolar é outra das preocupações destes encarregados de educação que mencionam o excesso de ruído, a presença de poeiras e ainda a falta de segurança para crianças desta faixa etária e questionam o motivo pelo qual não foi possível deixar os alunos estarem onde estavam, ou seja, nas Escolas de Casas dos Montes e de Vale de Anta, até as obras serem concluídas.

Por considerarem não estar reunidas todas as condições para o normal funcionamento das aulas decidiram avançar com um abaixo-assinado que será entregue às entidades próprias para tentar resolver a situação.

Devido ao encerramento da Escola de Casas dos Montes e da Escola de Vale de Anta os alunos do 1º. ciclo foram obrigados a mudar-se para a Escola Dr. Francisco Gonçalves Carneiro que até ao ano letivo anterior era frequentada por alunos do 2º. ciclo (5º. e 6º. anos).

Primeiro concurso para as AECs ficou deserto

Esta mudança está também a afetar o normal funcionamento das aulas do 2º. ciclo. Segundo contaram alguns pais a este jornal digital o toque habitual para entrada e saída das aulas foi desligado o que tem motivado alguns atrasos por parte dos estudantes às aulas. Aos pais foi explicado que o toque foi desligado “para não perturbar” os alunos do 1º. ciclo daquele estabelecimento de ensino.

Questionado pelo Diário de Chaves o vice-presidente da Câmara de Chaves, Francisco Melo, responsável pela área da Educação, esclareceu que o primeiro concurso para o preenchimento das horas relativas às AECs não teve candidatos.

Não houve pessoas com a habilitação necessária para o efeito que se candidatassem a esse trabalho”, disse Francisco Melo, acrescentando que o processo ficou deserto porque “as pessoas não gostam desse serviço, o valor por hora pode não ser bom e essencialmente porque as pessoas habilitadas estão à espera de arranjar por ventura horário completo”.

Só quando as pessoas não conseguem obter horário é que começam a concorrer às AECs. Essa competência foi transferida para as autarquias em abril deste ano”, sublinhou o responsável.

O concurso aberto pela a autarquia é para o preenchimento de 46 horários de oito horas, em vez das cinco horas habituais, para “tornar os horários mais apelativos”.

Município vai contratar oito funcionários a tempo inteiro para as escolas

Francisco Melo divulgou que a primeira oferta tem um valor base de 1.400€, dividido pelo valor hora. Como ficou deserto, o município abriu na segunda-feira nova oferta aumentando o valor para os 1.900€, ou seja, 12€/h.

Contudo, para os casos em que os pais não consigam ir buscar as crianças à escola enquanto o procedimento não fica concluído, a Câmara de Chaves vai antecipar a chamada “Componente de Apoio à Família, que irá decorrer entre as 16h e as 17h30 sem qualquer custo para as famílias, sendo o apoio realizado por equipas da autarquia.

No concelho de Chaves existem dez escolas do 1º. ciclo e apenas quatro estabelecimentos de ensino têm “Componente de Apoio à Família”. No total existem cerca de 4.900 alunos no concelho a frequentar os mais diversos níveis de ensino.

Para colmatar a falta de funcionários, o vice-presidente anunciou ainda que iriam ser contratadas oito pessoas a tempo inteiro para as escolas do concelho.

O responsável pelo pelouro da Educação informou também que a procura de alunos pela Escola Dr. Francisco Gonçalves Carneiro aumentou, havendo mais uma turma neste ano letivo, com um total de cerca de 100 alunos a frequentar este estabelecimento de ensino.

Obras têm um investimento de 600.000€

Relativamente às obras, que tiveram início em agosto, com um investimento de 600.000€, Francisco Melo revelou que a intervenção visa essencialmente a manutenção das redes de água e saneamento, com excesso de perda de água, e a eficiência energética ao nível das janelas e telhados.

A intervenção em solo está prevista ficar concluída até ao final de janeiro. O mesmo responsável garantiu que as obras “não vão interferir com o espaço interior da escola”.

Como a escola tem tantas salas, os alunos possivelmente terão de ser mudados pontualmente para outras salas durante a intervenção, mas a atividade letiva não será posta em causa”, sublinhou.

No espaço exterior as obras também serão realizadas de forma faseada para permitir a normal circulação das pessoas. O ruído e a poeira será igualmente “minimizada ao máximo”.

A escola vai ficar melhor, os pais não têm de se preocupar. Penso que os benefícios vão ser grandes”, rematou.

"Tivemos todo o cuidado em preparar as coisas para que os meninos se sintam bem na Gonçalves Carneiro"

A escola está também a ser munida de novos equipamentos informáticos e outras tecnologias, um investimento realizado em todas as escolas do concelho, num valor que ronda os 90.000€.

Sobre as questões levantadas pelos pais, a diretora do Agrupamento de Escolas Dr. António Granjo, Ana Paula Carvalho, nomeadamente acerca da turma do 4.ºB se encontrar separada das restantes do 1º. ciclo, a responsável explicou que estão a “dez metros” de distância daqueles alunos lembrando que as crianças desta turma e as do 5º. ano apenas têm um ano de idade de diferença.

Nos intervalos vão estar no mesmo local que os meninos do 1º. ciclo, só estão ligeiramente afastados. Tivemos todo o cuidado em preparar as coisas para que os meninos se sintam bem na Gonçalves Carneiro”, constatou a diretora, admitindo ter conhecimento da insatisfação por saírem das Escolas de Casas dos Montes e Vale de Anta, mas “nós estamos a fazer tudo para que eles gostem”.

A dirigente do agrupamento disse estar igualmente solidária pelo facto de estarem a decorrer obras no estabelecimento escolar e de poder causar alguma ansiedade: “Não é agradável estar em aulas com obras. Já houve outras escolas nessas circunstâncias. Temos de pensar que é um sacrificiozinho que vamos fazer para que a escola fique melhorada”.

Ana Paula Carvalho revelou que na escola estão quatro funcionários, dois de manhã e dois à tarde, responsáveis por cuidar e tratar das crianças do 1º. ciclo.

Sem professor não ficam

O arranque do ano letivo está também a ser marcado pela falta de professores em todo o país, e esta escola não foi exceção: “Nós começamos o ano com os professores todos, houve alguns que meteram atestado médico, mas sexta-feira foram todos substituídos”.

Quanto à aluna que veio da Suíça, a diretora disse que já está sinalizada e que será dado todo o apoio necessário. Relativamente aos alunos com necessidades educativas especiais a mesma apontou que o problema acontece porque os concursos este ano para os professores mudaram.

Isto é um problema do 1º. ciclo na cidade de Chaves toda. O ano passado havia muitos professores porque os concursos eram feitos de forma diferente e tínhamos professores suficientes para ter dois por turma. O segundo professor, que não era titular, dava apoio aos meninos que tinham mais dificuldades”.

No entanto, com as novas regras do Ministério da Educaçãojá não existe essa possibilidade”, contudo a responsável garante que sem professor estes meninos não vão ficar.

Já os vouchers que dão acesso aos livros, Ana Paula Carvalho disse que houve um problema com a plataforma que impediu a impressão dos mesmos.

O ano passado muitos alunos não entregaram os manuais. O Ministério este ano resolveu fechar a plataforma e os alunos que não entregaram os manuais agora têm que vir à escola, temos de pedir para abrir a plataforma, e isso está a atrasar o processo”.

Ana Paula Carvalho acredita que até dia 1 de outubro tudo ficará resolvido, exceto as obras que se irão prolongar até ao próximo ano.

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