domingo. 05.02.2023
Opinião de
Cristina Pizarro

Cristina Pizarro

Cristina Pizarro nasceu em Chaves, a 2 de Agosto de 1964, e vive no Porto desde 1982. Concluiu a Licenciatura em Ciências Farmacêuticas-Análises Químico-Biológicas pela Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP), em 1990. É licenciada também em Farmácia de Oficina e Hospitalar (FFUP) e tem uma pós-graduação em Análises Clínicas (FFUP). Em 2003 obteve o Título de Especialista em Análises Clínicas pela Ordem dos Farmacêuticos. É ainda responsável técnica do Laboratório de Microbiologia da Unidade de Água e Solo do Departamento de Saúde Ambiental do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, no Porto, desde 2002 até à presente data. Em 2003 publicou o seu primeiro livro Profissão: Palhaço, Ed.: Do Impensável - Projecto de Atitudes Culturais, e um ano depois editou o segundo, Poesia: Uma fase da vida, da mesma editora. Já este ano, 2021, publicou a terceira obra intitulada Crónicas de Assim dizer, Ed: Chiado Books, Lisboa, sendo premiada, no mesmo ano, com o segundo prémio na Secção B Poesia em Língua Estrangeira no “Prémio Internacional de Poesia Inédita Galáxia”, Primeira Edição 2021, Santiago do Chile, com o poema 20 anos. Muito recentemente foi distinguida na Categoria Poesia Estrangeira no concurso internacional literário de Poesia “Príncipe Nicoló Boncompagni Ludovisi”, em Roma, com o poema A vida foge-nos.

OPINIÃO | Mar Morto

 

Vivo

No mar morto

Flutuando na água

Como na superfície da realidade

Ignorando a lama da sua profundidade

Misturando o concreto

Com sonho e ficção

Vencendo a esperança que se impera

Tudo impreciso

No limite da possibilidade

Assim desejaríamos que flutuasse

A verdade e a justiça

A igualdade e a liberdade

A solidariedade

e a bondade dos Homens

Não só palavras

Levando à paz no mundo

OPINIÃO | Poema em linha curva

 

A linha estava ali

Ténue 

Não era a do horizonte

Não separava mar nem terra

Do céu

 

Era uma linha frágil 

Curva

Que se contorcia

Em parte

No todo

Que delimitava espaços 

Ténues 

Frágeis 

 

Assustava estar perto dela

O medo alimentava-nos

Sem a percepção disso

Fugimos

 

Nunca soubemos de quê 

 

OPINIÃO | Desertos

 

Tens tanto medo como eu

Não sabes de quê 

Nem sabes porquê

Foges 

Como um animal aflito

Corres

Como se alguém te perseguisse

Quando o desejo é ficar

Quando o risco é não ir

 

No deserto sem água 

Vazio e vital

Árido e seco

Há uma veia a latejar

Há fontes de água cristalina

E é lá que mora o medo

Na seiva das plantas feridas

 

O que haverá depois da sede

Quando ela já não estiver?

Medo

 

OPINIÃO | A luz

 

A luz incidia sobre mim

E cegava-me

Transparecia-me

Os meus olhos desesperados

A querer ver

À procura da escuridão 

Para os poder abrir

E de novo a luz 

A punir-me

E não tinha sido eu

 

OPINIÃO | No mar alto

 

Como um barco à deriva

Procurava no teu corpo 

Encontrar pedaços do meu

E tu

Como um barco à deriva

A teimar que o farol estava perto

Com a luz apagada

Perguntavas-me

Não sentes?

E eu que sim

A dizer que não

E o farol ausente

Distante

Ao sentir a proximidade

De dois barcos perdidos

Acende a luz

Por causa do nevoeiro

E os barcos à deriva 

A acreditar no por acaso

OPINIÃO | No berço

O mundo estava ali aos gritos

Sozinho

Eu a querer acudir-lhe

Sem força capaz

Quis pô-lo no berço

Pesado que era

Caímos os dois

Consegui levantar-me

Mas ele redondo coitado 

Patinhava no chão molhado

Sem braços nem pernas

Olhava para mim sem falar

Mas com o olhar a implorar

A dizer pega-me ao colo

E eu de novo a tentar

E outra vez a cair

Dei-lhe a mão

Rolámos pelo espaço

Fugimos dos buracos negros

No céu minado

E rimos à gargalhada

Adormeci depois sem querer

Exausta no berço também

Acordei com ele

De novo aos gritos

Em cima de mim redondo pesado

E eu sem colete salva-vidas

Naufraguei

Sem pernas nem braços

Redonda pesada

E ele nem sequer me deu a mão

OPINIÃO | Um não poema

 

Querias um poema

Uma frase ou um verso

Não me sai nada

Cavaste na distância o silêncio 

O fantasma que engole palavras

Um caminho para o sem destino

Um muro alto sem comunicação 

Transformaste a ausência

Num acordo tácito

Unilateral

Fizeste da esperança de hoje

A esperança do amanhã

Infértil

E depois vens como um gato

Miar ao dono da casa que é dele

Não se percebe nada

Mas continuas a querer o poema

A frase ou o verso

E eu só tenho palavras

Que não te servem

Palavras que te não posso dar

Porque não são minhas

E tu querias que fossem

Insistes nisso

E eu não as tenho

O gato deixou de miar

E o dono vendeu a casa

 

OPINIÃO | Árvores como pássaros

 

É preciso deixar morrer

Enterrar as mágoas 

Dos ramos que foram e já não são 

Como as coisas e as pessoas

Que já não estão  

E dessa árvore maior

Que depois fica porque cresceu

Perceber que há braços que fugiram dela

Uns que se torceram

Outros que divagaram

Alguns que partiram sem ter estado

Que desapareceram

Que não ficaram por medo

Ou cobardia

De não saber estar

Ou ser capaz

De acompanhar o sentimento da árvore 

Que crescia em direcção ao céu 

Como fazia sentido

As raízes só lá estavam para a alimentar

Para a fazer crescer

Não para a trazer de volta

Nem de regresso à terra

 

Se lhe tivessem dado asas... 

Dançaria agora com os pássaros 

Resgataria deles o céu

Que não é apenas deles

O céu de que se apropriaram

Que julgaram conquistar

Numa ignorância incompreensível

 

Mas agora chegou o momento

É preciso deixar morrer

A árvore seguirá o seu caminho

A árvore que parecia parada 

Afinal anda

Afinal voa

Tem a Arte

Como destino

Fez do efémero

A sua eternidade

 

OPINIÃO | O artesão

 

O artesão limava as imperfeições da pérola

Como se ela não estivesse pronta

Polia arestas

Que ela não tinha

E desgastou-a até desaparecer

 

Limou depois os dedos

Sem se aperceber

Primeiro a carne e depois o osso

Até ficar sem eles

 

O talento impedia-o de sentir dor

E o desejo de perfeição

Impelia-o a continuar

 

Quando se viu amputado

Começou a bastar-lhe

Tratar das ostras doentes

OPINIÃO | Cibernauta

 

Fui ao céu e voltei

Quando cheguei

Não reconheci a casa

Estava tudo fora de sítio 

Como antes

Mas agora num outro local

 

Se era bom ou mau não sei

Há ordem no caos

Como há ordem na ordem

A primeira mais difícil de entender

Mas tão real como a segunda

 

No exacto momento

Em que os meus pés tocaram a Terra

Habitualmente firme

Senti um tremor

Pareceram-me nuvens

Em vez de segurança

Ou conforto 

Senti umas asas a crescerem-me

No lugar dos braços

E

Já que as tinha 

Voei no céu azul

Num feliz e improvável regresso 

Para tão longe de ti e de mim

Que esbarrei na fronteira do ser e estar

 

Quando me pediram a identidade 

Não tinha comigo nem CC nem passaporte

Mandaram-me de regresso à Terra

E nunca mais voltei

 

Fiquei com as asas

E sem pena

OPINIÃO | Um poente

 

Ontem o Sol não se pôs 

E eu estava lá àquela hora

À hora a que ele se põe 

Um bocadinho antes

Por causa daquela descida

Sempre surpreendente

Irrepetível

Que muda a cada instante

 

Mudam as cores

Mudam as formas

Mudam os traços

Até os pensamentos 

 

O céu com nuvens

Pareceu-me limpo

Com um azul de encantar

Brisa nenhuma

Uma paz gigante

Próxima da imensidão

Mar mar e mar

Numa melodia apaixonante

 

E de repente o Sol desaparece

Anuncia-se e vai-se embora

Alguém esperava por ele

Numa outra praia

Àquela mesma hora

E ele foi

 

Deixou-me um poente

Lindo 

Mas sem graça nenhuma

É aqui que o belo muda

 

OPINIÃO | A terceira pessoa da Santíssima Trindade (Poesia)

 

Estavam ali as três a conversar

Duas com um cérebro megalómano

E a mais nova

Coitada

Sem cérebro nenhum

Lia poesia à sombra das árvores

Com tudo à flor da pele

A alma a transbordar

O coração num desassossego

Ainda as coisas não estavam lá

Já ela se arrepiava

Que sim

Dizia

Não é preciso mais que sentir


 

E as outras duas incrédulas

Olhavam uma para outra

A achar que faltava ali qualquer coisa

Não tanto coerência

Mas vida a sério


 

Agarraram nela

Como irmãs mais velhas e

De mãos dadas

Correram as três pela praia

Assustando as gaivotas

Idiotas

Que a quilómetros de distância

Esperavam ver o peixe a saltar


 

E eis senão quando

Três grãos de areia gigantes apareceram

A dizer Bom dia

E no meio da festa

Por brevíssimos instantes

A mais nova fechou o livro

E dançou no chão molhado

 

Escultura de Miguel Neves Oliveira

OPINIÃO | Espaço em tempo (Poesia)

 

A distância que vai de mim a mim

é tão curta 

que não sei como a adivinhaste tão depressa

Não fui eu que disse

Não fui eu que quis

Não fui eu que fiz

Nem tu

 

A distância que vai de ti a ti

é tão grande 

que não sei como a adivinhei tão depressa

Não foste tu que disseste 

Não foste tu que quiseste

Não foste tu que fizeste 

Nem eu

 

É por isso que fujo 

Em tempo

Do espaço

 

O relógio marca sempre a mesma hora

E eu queria que houvesse nele um Céu

Só azul

OPINIÃO | Em contraluz (Poesia)

 

A fogueira apagada

Reacendeu-se 

Quase do nada 

Como um rio sem nascente

Que corre lentamente 

Para o mar sem fim

 

Alheio a tudo

Impreciso

Livre e determinado

Inevitável

 

Entre a brasa carbonizada

Cinza escuro

Do esquecimento 

E a chama visível

Alaranjada

Do nascimento 

Apareceu um arco-íris 

Dissimulado nas cores

Vago no nome das coisas

 

Ninguém viu

Não deram por nada

Sentiu quem quis

E foi capaz

 

Respirar

Também se aprende

OPINIÃO | Pensamentos peregrinos (Poesia)

 

Como peregrinos 

Ladeavam a estrada 

De um e de outro lado

Sem destino

 

Guiava-os a convicção

Uma crença interior 

Em nada

Vazia de sentido

Ávida de razão

 

Paravam 

Por breves momentos

Para se refazerem

Para se reconstruirem

E logo eram atropelados por outros

Clandestinos

Que viajavam

Uns na mesma direcção 

Outros em direcção contrária

 

Nenhum deles parou

Para me perguntar o que fazia ali

E havia tempo

Mas não vontade

 

Assim partimos todos

Uns dos outros

 

 

OPINIÃO | No parque (Poesia)

 

Cansada de te escrever

Quis desenhar-te... 

Nem um traço! 

 

Sabia-te a face

Mas mais nada

Um corpo imaginário

Previsível por baixo da roupa

Onde um coração pulsava

Por uma vida onde eu não estava

 

E encontrei

Ao fim da tarde

Juntos

Sentados num banco

A conversar

O amor e a morte

Entusiasmados

Como se nada houvesse a lamentar 

Nem o sol se tivesse posto

Triste! 

E eu com a poesia no bolso

A rir-me nas costas deles... 

Lindo!

FOTO: Júlio Teixeira

OPINIÃO | Na noite (Poesia)

Estava tudo escuro

Nem o contorno das coisas se notava

Nem estrelas

Nem velas

Nem lua

Nenhuma luz nos teus olhos

Noite pura

 

E de repente sente-se 

Uma melodia

Uma aragem quente

Vento do deserto

Ouve-se um perfume de rosas 

Sem estarem

Mas brancas

De certeza

 

Os nossos olhos habituam-se

Lentamente 

Muito lentamente 

E começam a aparecer umas sombras

Umas formas na penumbra

Como um sólido planificado

E outra vez de repente... 

3D

Foto de Júlio Teixeira

 


 

OPINIÃO | O Futuro (Poesia)

Vamos acrescentando coisas ao futuro

Umas porque queremos

Outras sem darmos conta

Outras sem querermos

E ele vai-se definindo

Ficando cada vez mais certo

 

E isto 

Que antigamente nos parecia bem

E que até chegámos a desejar

Inconscientes do que pedíamos

Começa a assustar-nos

Começa a fugir-nos do controlo

Que alegremente negávamos

Sempre com a desculpa

Das circunstâncias

Que a responsabilidade era toda 

Das margens do rio 

E de repente a coisa fica séria 

Dizem-nos que a solução 

Está na aceitação

 

Nós

Que tínhamos a convicção íntima 

De que estava na escolha 

Na liberdade

No inconformismo

Ou até na revolta…

 

Começamos a acender velas

Umas atrás das outras

Ainda não as tínhamos apagado todas

E já alguém nos está a acender mais

 

Dizem-nos para sorrir

Para uma fotografia 

Para memória futura

Para quando já não estivermos

 

E nós sopramos as velas

De repente tornamo-nos obedientes

Nós que contestávamos tudo

E pensamos 

Numa tentativa frustrada de conforto:

É a vida

No singular momento

Em que temos a morte à nossa frente

E o futuro como certo 

Bolas! 

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OPINIÃO | O menino de sua mãe (Poesia)

O menino cresceu

O menino ficou grande

Transformou-se num gigante

Os braços cresceram tanto

Que tocavam no céu 

As pernas tão compridas 

Que furavam a terra

As mãos enormes

Onde tudo cabia 

Um futuro incomensurável 

A cabeça do tamanho

Do universo infinito

E o coração

O coração... 

O coração ímpar 

A rolar pelo espaço 

Os olhos do tamanho das estrelas

Brilhavam de noite e de dia

E despediu-se de sua mãe

Fazendo um coração 

Com os dedos 

Um coração japonês 

Que a mãe não conhecia

E aprendeu nesse dia

Que o eterno menino

Era o seu eterno gigante

Porque assim são os sonhos

Porque assim é a vida

Quando se ama

Gigante 

FOTO: Júlio Teixeira
FOTO: Júlio Teixeira

 

OPINIÃO | Maths (Poesia)

Era tão imperceptível

E ao mesmo tempo indelével 

Um grão de areia

Na imensidão da praia

Que fazia diferença

 

Não se sentia a presença do todo

Mas a ausência da parte

Menos um raio de sol no céu azul

Uma estrela a menos na escuridão da noite 

 

Era preciso estar atento

Saber contar

E sentir que entre o menos 

E o mais infinito

Faltava um número pelo meio

Um número pelo menos 

 

Ainda que fosse o zero

Era um número 

Fazia diferença 

Estivesse à esquerda ou à direita

Era da sua ausência 

Que eu sentia a falta

 

Do vazio preenchido 

O buraco negro 

Num Universo insondável 

Tu

A fada-madrinha 

Foto: Júlio Teixeira