domingo. 05.02.2023
Opinião de
Paulo Santos

Paulo Santos

OPINIÃO | As palavras tangíveis: A terra vestida pela madrugada

Terminei, há pedaço, um capitulo de um novo livro que a espaços vou tingindo. Nele, escrevo página a página sem me preocupar com o fim ou o início. Algo há-de acontecer.

Estas crónicas que agora forjo, surgem, vencido o dia, quando a calma reina e as outras páginas estão resolvidas. Gosto da calma. Gosto de ruas vazias, no escuro da madrugada, de chão empedrado, polvilhadas de aromas e musas, que me lembram os passos. Gosto, ao caminhar nelas, de saber gente que descansa tranquila por detrás dos alçados das casas, dormentes, alcandoradas sobre as vias e as cobrem de quietude.

 

Há em mim uma chama de saudade. Já não tenho olhos para quimeras ou tempo para inventar coisas velhas. Pingam estas letras, sonolentas, à procura de café. Deixo-as, como cubos de açúcar vertidos na chávena, a temperar o compasso destas linhas na esplanada dos dias.

Como não tenho coisas sérias para dizer, entre duas idas à varanda para sentir o rumor do vento, disfarço o que sinto nestas linhas que entrelaço.

 

Há pouco a brisa devolveu-me a terra. A minha. Neste quente fim de Maio, o velho “Texas” inundava a província com um silvo de fim de ciclo. Junho, a dois passos, decretava, apressado, o fim do ano letivo. Era o princípio d´outras correrias. Foi há muito tempo. Tanto que o pudor me enrubesce a face. Guardo tais segredos para mim.

Hoje, num tempo de sol bravio, desregrado, do velho cavalo-de-ferro, e das terras adjacentes, somente restam as cinzas. Sirvo-me das lembranças como piedosa alucinação. Em ponto cruz.

Demasiadas ruas despidas. Passos que já não percorro. Vazio. Cheiro a frio que a coragem não calafeta. Acendo a chama.

 

As terras no interior profundo. Aldeias nas encostas mergulhadas na solidão. Uma nudez violenta a perder de vista. O pudor contorce-se. Gostava de poder tecer palavras mais esbeltas ou mais cheia de vida. Cuja raia da esperança transbordasse noutras memórias e com elas a vestisse integralmente. Mas a visão é a paz que me resta.

E, de olhos fechados, levam-me as solas a outras vias. Onde tudo é tão nítido. As últimas portas abertas. Raios parta... Afinal... O que tanto procuramos, largando as terras? O que nos basta?

 

Essa posse infinita do tempo que não dominamos e quando o alcançamos é tão tarde. Os olhos foram-se no passado. A juventude no caminho e nos ossos carregam-se as mazelas e os remorsos.

 

Das terras que deixaram colhem indiferença. A sete palmos.

Já vos disse: Não tenho coisas sérias para dizer.

Algo há-de acontecer.

 

 

OPINIÃO | As palavras tangíveis: Caminho

Observo relógio e já novo dia entra pelos ponteiros. Tenho estas letras para escrever. A par de outras, invisíveis, que vou desprendendo no mais íntimo dos pulsares.

Dias de calor a anunciar o despertar do demo. O aroma das flores sobre as brasas do fim de tarde. Não gosto. Dantes gostava. Dessas fogueiras vivas. Dantes. Nos tempos em que a memória era uma pele que não vestia.

Vou tomando notas ao longo da semana, para que nelas busque inspiração para estas páginas.

Na sebenta escrevi: Onze de Maio de dois mil e vinte e dois - Estrada nacional n.º2 - Setenta e sete anos sobre a data da sua criação.

Se voltasse ao dantes, percorria quilómetros pelo interior de mim. Teria a idade do fascínio. E, decerto, me lembraria do turbilhão desses marcos. A estrada que servia de porta de entrada ao reino. Se fosse Verão, as termas do concelho estariam repletas. Hóspedes a curar maleitas do pecado da íncúria. Hotelaria lotada. Gente a ganhar a vida. Parques a rebentar pelas costuras. Movimento. Risos. A música da madrugada a bailar com os verdes anos. Dantes. Quando o tempo me bebia suave.

Abrigo-me à sombra desta crónica. Escrevo: O fim só nasce na ausência de sentido.

Isso é agora a nacional dois. Um outro caminho. Um novo sentido. Uma via de peregrinos à procura das raízes da nação. A dimensão do olhar e da lente. O mapa do país real que habita o rosto das gentes, das terras, dos concelhos por detrás da costa. Alguns voltam para revisitar os dias. Descobrir a luz do dia que dantes não sabiam. Que revelam os plátanos tingidos, a montanha que se despe, a janela que se abre. Abarcam as pedras e as almas. Procuram o autêntico. Desde o desabrochar do dia, quando acordam as tílias, ao fim de tarde pintado, vagaroso, num tom de pele cálido a pedir maresia.

E, assim, no trilho, tudo recomeça de novo.

Cerro as letras. Á boleia da estrada. Hoje o caminho, quente como lume, não se insinua na pele. Prefiro os dias mais firmes. Brancos, de frio alvo. A pedir outras roupas para lá da memória. A pedir gente, que irrompa aos bandos por essa estrada e se fixe por aqui. Como dantes.

Por isso, que ninguém me pergunte porque findo esta viagem com a alma em chaga.

OPINIÃO | As palavras tangíveis: Daqui

Gostaria um dia de saber escrever estas linhas como quando falo com o coração. Como saboreio o mundo com os meus olhos. Há neles fome indizível.

Reparo que ainda não me tinha apresentado. (Obrigada amiga Cátia Portela pelo convite a estampar-me nestas páginas).

Chamo-me Paulo e gosto de bordar palavras. Sou daqui.

Há palavras que só nós sabemos. Outras que aprendemos. Ainda outras que se entranham pelo corpo como se fossem húmus. Pequenas letras que dantes, quando o mundo mal nos cabia na palma das mãos, significavam tudo. Dizer que sou daqui é afirmar ao mundo que sou de uma terra de gigantes. Estes penedios com sangue quente que nos definem. Resistentes à erosão do abandono.

Continuo aqui. Se soubesse escrever o que os olhos me dão a comer, haveria sempre Primavera e giestas floridas nas escarpas. E a liberdade era de novo carmim. Fogo a anunciar a curva da estrada. Mas restam-me estas letras prisioneiras dos dias e da lucidez. E meus olhos também se cansam com tanta fome.

Ao longe. As serras adormecem.

Se me ouvissem, guardariam a certeza que as canto. Que lhes dou guarida.

Que lhes amparo os gritos como se fosse uma parede de água.

E se a pele em chaga, de um granito velho que se esboroa na despedida, lhe tirou o voo, deito-me a seu lado apontando as estrelas.

É que já voguei nelas em naus de madeira. Em faina de mares revoltos.

Daqui. Navegando nesses oceanos com remos da madeira e esperança sem nunca ter tirado os pés do chão.

Claro que me sentarei sempre no cais a velar o sono desses gigantes de pedra floridos. Talvez não tão lentamente porque tenho pressa. O pulsar dos dias aqui, em mim, é agora diferente. E eu não o esqueço.

A memória, que o tempo tece, é um rio que nos leva ao mar da alma.

E, ainda assim, ao olhar essas serras, que nos definem tão puras, tão sós e desamparadas, logo vagas de mar em cascata ameaçam monção no profundo de meus olhos.

Eles que são a minha boca.

OPINIÃO | As palavras tangíveis: Aroma

Chegaste como um céu carregado de aves, anunciando liberdade nas colinas, querido Abril. Tão ansiado que os cravos floriram nas lapelas, nos canos das espingardas e nos ombros. Era cedo. Mal despontava o dia. Mas nas árvores dos campos já os frutos amadureciam. Colhiam-se com os olhos.

Já hoje me perguntei como pudeste, depois, partir tão depressa. Como um barco apressado, de velas fartas, encorpadas pelo vento, a rasgar desespero pelas ondas. Tenho a boca seca de tanto perguntar.

Nesta tarde, em que por ti pergunto, uma criança pousa os olhos no horizonte onde as gaivotas planam distantes. Uma mulher de braços tombados, um homem que dorme sem sono, jovens que se apressam em partir, padecem à espera. Apenas chega o fim de dia. Vazio. Sem anúncio nem senhas.

Dois velhos discutem sobre o amontoado das cartas e das promessas que fizeram à esperança. Hão depois deitar-se nelas. Cansados.

Volto à pergunta. Porque partiste quando em teu aroma brotava o perfume da ideia: um homem é um homem. Sem jugos para unir esforços e semear as searas de um país. Livre e desperto. Cantando na faina!

Lábios secos, olho em redor e nada mais vejo que gente que abdicou de fazer heróis e se tornou escravo do silêncio. Estátuas anónimas trocando olhares comovidos nestas praças floridas dedicadas à memória.

Invade-me o desespero, a sensação de um novo cheiro a cravos que nos devolva aos lugares onde a vida, fazendo-nos iguais, nos ensine a distinguir o sono do sonho.

Volto a mim. Sem atalhos. Por meus passos, vejo do outro lado da avenida o rio serpenteando em acordes.

Leva na sinfonia as últimas luzes do dia , a resposta à pergunta e a réstia da minha lucidez.

Agradeço-lhe por isso.

OPINIÃO | As palavras tangíveis: Desculpa, não chegou a Primavera

Dizem que o sangue circula espesso dentro do homem. Também por dentro assumimos que tudo começa a desaparecer. Sobrando, para nos recordar, as poucas nódoas que caem na memória. Lugares onde a luz não toca

Pouco nos incomoda a ficção que sabemos real. Os corpos, aflitos, desnorteados, que tombam na rua difundidos em écrans de alta definição. Longe. Muito longe.

Pode-se morrer de muitas noites. Da cor púrpura do entardecer. De súplica. Muitos morrem sem terem vivido .Mas há vozes que vemos morrer, abafadas, no estertor da ausência. Sem um sopro, paz ou consciência, que as ressuscite.

A guerra, servida nua, é dos outros. Ainda que, na penumbra, a possamos ver no espelho com a amarga sensação de um pássaro chamado coragem que se quebra contra as pálpebras.

A verdade cansa-nos mais do que tudo o resto. É verdade. Muito mais que a injustiça, a soberba ou a guerra sem nome.

Deixamos que o dia nos rasgue a pele. Onde o tempo atravesse a carne. Lambemos feridas que não podem sarar.

No estilhaço das bombas o sangue, espesso, escarlate, rompe as veias e mancha as mãos.

Fechamos a alma. Nus.

O coração, cego, desmanchando-se contra as pedras do grito.

Vazios no espelho. Corpo tão magro de pudor quanto a indiferença que o consome. Invisível.

E nenhuns pássaros.

OPINIÃO | As palavras tangíveis: Um poema para a Poesia

Ler um poema deveria ser um segredo. Um sigilo tecido pela bruma da maresia. O leve murmúrio da onda que se estatela no primeiro beijo. O eco que apaga o bater das horas. O bater das asas no voo dos pássaros.

Digo-te: Um poema não é barulho. Nem compasso cerzido na orla da cobardia. Não é urze. Nem flor de lápide. Um poema não se vende em hipermercados. Nem se diz como cartilha de medicamento. Não é chá de ervas castas servido com bolacha barata. Um poema é alquimia. Aroma de fruto que se despe com as mãos

Um poema não se serve morto. Nem morno.

Os poemas são sementes que germinam em carne viva.

São vida. Água. Poças, rios e regatos. Alfaias de poeta.

Se o sou, prefiro esses charcos tingidos de Inverno maduro onde me banho. Essas chuvas ásperas que nos ocultam os cabelos brancos e tombam em cascata na terra dura que nos abraça os pés. Parir um poema é fazer florir os pregos do mais triste casebre e chamar-lhe Primavera.

Um poema é caminho silvestre sem bermas nem empedrado. Ainda que áspero, no gume das sombras, resplandece em regato nos olhos. Na malvasia da memória. Um poema é uma vida que se vai dizendo por meio de sucessivos adeus. Por isso, no ocaso, o grito dos homens desolados a quem nunca segredaram um poema.

Deveria ser sempre assim a poesia: inóspita.

Para que nada a perturbe. Para que ninguém a habite.