segunda-feira. 26.02.2024
Opinião de
Rodrigo Freitas

Rodrigo Freitas

OPINIÃO | O Tempo Vai Esperar (Os Quatro E Meia)

“Os Quatro e Meia” é uma banda portuguesa, formada no ano de 2013 em Coimbra. Atualmente a banda é composta por seis elementos o Tiago (voz e guitarra), o Ricardo (voz e guitarra), o João (violino e bandolim), o Mário (acordeão e voz), o Pedro (percussão) e o Rui (baixo e contrabaixo) 1. A banda alcançou a fama depois do lançamento do primeiro albúm, “Ponto nos Is”, em 2017. Apesar de maior parte serem músicos amadores, “Os Quatro e Meia” é das bandas mais tocadas nas principais rádios do país.

 

Este é o segundo álbum da banda e intitula-se de “O Tempo Vai Esperar”. O álbum era para ser lançado em abril de 2020, mas, devido à pandemia de Covid-19, apenas foi lançado em setembro do mesmo ano. “O Tempo Vai Esperar” é composto por onze músicas e tem a participação especial de dois artistas nacionais: Carlão e Tatanka. Foi gravado e produzido por João Só no Estudiozeco e no Estúdio de Vale de Lobos e tem o selo da Sony Music Entertainment.

 

A primeira música, com o mesmo nome do álbum, apresenta um instrumental simples e ritmado, oferecendo muita leveza e agrado a quem ouve. A isto juntam-se as magníficas e características vozes deste grupo que depois da apresentação do tema a uma voz se junta a segunda voz com acompanhamento. Ao longo da música acabam por se juntar as restantes, o que dá uma sensação de acumulação sonora. No entanto, antes da repetição final da música este crescendo sofre uma quebra no instrumental para depois, quando retoma o instrumental, dar mais enfâse ao final. Tendo em conta a música no seu todo penso que ter optado por estas variações de densidade veio trazer mais dinâmica à mesma.

 

A “Terra Gira” é o nome da segunda música deste álbum. A música começa apenas com voz e guitarra, o que eu gosto, pois nos faz direcionar para a letra, escrita com vocabulário simples, o que também contribui para o efeito. Nesta música a variação da densidade de vozes acontece entre versos, pré-refrão e refrão. Para além da maior densidade no refrão, a métrica do refrão dá a sensação de movimento, sendo uma técnica muito boa para intensificar a letra que aí se refere a movimento (“A terra gira” e “Corremos”).

 

Na faixa que se segue, intitulada de “Canção de Metro”, merece destaque o trabalho de produção que coloca a introdução instrumental com vocalizo com menor intensidade, o que nos pode remeter a um imaginário de que o músico está a cantar no metro. A letra desta música aborda as diferentes reações de quem passa por um músico que canta e toca no metro. Nesta canção aparece um instrumento menos comum neste tipo de música, mas que, com o passar do tempo, se vai tornando numa das marcas características d’ Os Quatro e Meia. Este instrumento é o violino, que se destaca pela sua sonoridade diferenciada dos demais instrumentos característicos do pop/rock.

 

A faixa “Sabes Bem” tem um instrumental simples, onde se destaca a guitarra acústica no acompanhamento da voz durante a música quase toda, uma melodia bonita e um refrão forte e com poder sonoro, no entanto esta música não apresenta nada de diferente das restantes canções.

“Só Mais Um Instante” é o nome da quinta faixa. Esta canção tem uma letra rica em comparações, metáforas, anáforas e repetições, recursos expressivos que fortificam a mensagem da letra que trata uma reflexão sobre o tempo. A presença do tempo como temática desta canção faz a ligação com o título do álbum que tem como referência o mesmo tema. Tal como já referido sobre o instrumental da “Canção de Metro”, o violino também faz parte do instrumental desta música, mas nesta também se junta o acordeão.

 

A seguinte música do álbum é uma colaboração com o rapper português Carlão. Devido à presença de Carlão com um discurso rítmico diferente (rap), esta música destaca-se por ter uma forma mais diferenciada das restantes. Acho que as partes d’ Os Quatro e Meia estão muito bem conseguidas e fazem uma boa ligação com as partes de Carlão, que são muito ativas e ritmadas. A introdução dos saxofones no instrumental também é de realçar, pois dão a frescura instrumental que a presença de Carlão pede.

A sétima faixa, “A Manta do Teu Coração”, é mais do mesmo género da banda e que tem uma melodia muito semelhante à terceira canção deste álbum, não tendo nenhum aspeto que mereça um destaque especial. A faixa seguinte, “Estou tão bem Assim”, apesar de ter uma construção e uma forma diferentes, em que não se identifica apenas um refrão, também não tem nada que se destaque.

 

A música “Traiçoeira é a Sorte” inicia-se com um tempo enérgico e bem marcado por um instrumental fora do comum da banda. A diferença mais notória desta canção, comparativamente às outras, é a não existência de segundas vozes sobrepostas à voz principal e apenas um coral em vocalizo.

A canção “Coisas Tão Bonitas” é bastante diferente das demais. O balanço ternário e o instrumental com o acordeão e o violino remetem para chanson francesa o que dá leveza e alegria à música. A construção do instrumental está muito bem conseguida principalmente na transição para o final da música, onde se ouve apenas o instrumental e que cria mesmo um destaque ainda mais forte para a, já referida, música francesa. A letra vai ao encontro do instrumental, uma vez que tem uma mensagem positiva e alegre.

 

A última faixa é uma música que já estava presente no álbum “Ponto nos Is”, no entanto no álbum “O Tempo Vai Esperar” conta com a participação do cantor Tatanka. A música tem toda a lógica de estar neste álbum uma vez que o seu tema vai ao encontro do tema do álbum – o tempo. Nesta versão as harmonias vocais, características da banda, perdem um pouco de espaço para dar lugar à voz de Pedro Tatanka, o que é uma mais-valia e foi uma excelente opção, pois a voz deste cantor oferece uma cor totalmente diferente.

 

No geral, o álbum “O Tempo Vai Esperar” é a continuação do bom trabalho d’ Os Quatro e Meia, porém parece-me que este álbum, ao contrário do anterior, foi mais pensado para fins comerciais, uma vez que maioria das músicas segue o mesmo padrão de construção e forma, o que faz com que as músicas, quando ouvidas várias vezes, se tornem mais rapidamente aborrecidas. Apesar dessa mudança a banda continua a manter as suas marcas tão características que são as harmonias vocais e o instrumental.