sábado. 02.03.2024
Opinião de
Ana Lobo

Ana Lobo

OPINIÃO | Concerto: Música no cinema com o Coro e Orquestra Gulbenkian

O concerto anual no Vale do Silêncio tornou-se já um evento querido dos lisboetas e um marco cultural na cidade de Lisboa.

Na segunda edição deste projeto organizado em parceria com o festival Lisboa na Rua da EGEAC, e sob a direção de Joana Carneiro, o Coro e a Orquestra Gulbenkian apresentaram algumas das mais notáveis obras musicais, num programa votado pelo público.

 

O repertório de música clássica associada ao cinema foi escolhido pelo público, a partir de uma seleção de 30 músicas. Depois de eleitas 11 bandas sonoras, e após vários ensaios, o resultado foi ouvido no dia 6 de maio de 2020 pelas 19h, no parque Vale do Silêncio, nos Olivais, em Lisboa.

A qualidade e o alto nível técnico ficaram evidentes quando ouvimos o Coro e a Orquestra Gulbenkian. A afinação era perfeita. Ouviu-se um som que revelou trabalho musicalmente amadurecido, equilibrado e consistente.

 

Neste concerto pudemos ouvir várias obras importantes, tais como, “Oh Fortuna” (Carmina Burana) de Carl Orff no filme “Assassinos Natos", e todos os artistas em palco, vocais e instrumentais, foram grandiosos na sua atuação. Esta obra é marcada por momentos exuberantes e grandiosos. Os momentos alternados entre tutti e naipes criaram cores completamente distintas, dando relevância também aos silêncios, tão importantes na música. Para além de trazer muita expressividade, Joana Carneiro demonstra de facto um excelente domínio interpretativo.

 

Ao longo do concerto também se ouviu aquela que é, para mim, a mais grandiosa de todas as obras de Mozart – “Lacrimosa” do Requiem. O caráter lamentoso, comoveu o público que estava presente no concerto e a interpretação da Orquestra e do Coro foi incrível, pois demonstrou a potência expressiva que a obra possui, uma força intensa.

Algo menos positivo, a meu ver, foi o facto de o público aplaudir na última nota da obra “Nabucco “Coro dos Escravos Hebreus” de Giuseppe Verdi, destabilizando um pouco o ambiente para a orquestra e respetiva maestrina.

 

Mais tarde pudemos ouvir ‘Mambo’, de Bernstein. A natureza ativa e intensa com o uso de notas cromáticas sugere ao ouvinte uma certa inquietude. Adicionando a esta característica, o uso extensivo de percussão também faz-nos viajar à música da América Latina: ritmos de dança acentuados e de jazz, esta secção é talvez uma das mais emocionantes.

Para terminar esta partilha, este foi um excelente concerto que tirou a Orquestra da Gulbenkian e aproximou-a da rua, possibilitando a quem passasse usufruir de repertório exigente e de qualidade. As obras, por serem bastante conhecidas, foram bem recebidas e o sentimento que ficou foi a da transmissão de ideias como a liberdade, paz e solidariedade, finalizando o concerto com o último andamento da 9° sinfonia, de L. van Beethoven.