quarta-feira. 28.09.2022

OPINIÃO | Crónica da Nélita

Há dias enquanto o último membro da família se encontrava confortavelmente recolhido no seio de sua mãe e após uma visita de rotina a Vila Real (até quando Senhor os flavienses nascerão vila-realenses) a hora do almoço aproximava-se a passos largos e por sugestão da gentil mamã fomos ao Burguesia devo confessar que a palavra porque me lembra latifundiários capitalistas e exploradores é daquelas com que engalinho solenemente – reminiscências da anarquista convicta que fui em tempos de adolescência – mas na família uma mamã tem prioridade e lá me dirigi ao restaurante que desconhecia em absoluto pois sou ainda do tempo dos armazéns com lençóis e tudo o que fosse para casa e enxoval inclusive ceroulas para os dias gélidos de inverno a entrada foi uma agradável surpresa pois a decoração sóbria em tons de cinza com apontamentos de branco formavam figuras geométricas repousantes no balcão e contrastavam com o colorido da diversidade de bebidas que soube mais tarde dão lugar a cocktails adoráveis o logótipo dourado um B roliço quase bovino cujo traço horizontal superior do B se prolongava num corno que me lembrou logo os bois do Barroso mas em grande estilo todavia o mistério persistia pois o B de burguesia ganhava novas semânticas e deixou a carga semântica execrável de termo depreciativo burguesia e catapultou-me para um conceito inovador e criativo de Burguer confesso que ao chegar a essa analogia adorei o conceito e até me reconciliei com o nome do Restaurante depois de uma análise mais detalhada gostei do facto de a cozinha ser aberta para a sala de refeições que por sinal estava repleta agradou-me ainda os individuais num xadrez fininho a preto e bronze ou dourado escuro e os pratos imaculadamente brancos enquanto a Raquel lia a ementa através de uma aplicação no telemóvel eu optei por um burguer de frango panado – chicken temptationcom cebola caramelizada lindamente recheado por uma fatia de queijo e outros sabores frescos e saborosos servido com uma montanha de batata frita que assustava tudo isto acompanhado por um fino traçado já os filhos optaram por uma salada romanesca que vinha servida em pratos fundos próprios para massas italianas e que eles comeram até à última folha de alface beberam água pois a mamã recusa-se a beber álcool e o papá por solidariedade também antes disso como entrada veio bolo do caco com azeite e alho provavelmente isso bastaria mas dos nomes das sobremesas ressaltou um que do alto dos meus setenta e cinco anos me permitiu exigir enquanto os meus companheiros de refeição se contentaram com algo sóbrio e politicamente aceitável eu atirei-me de cabeça para a sobremesa orgasmo por razões óbvias como o leitor deve calcular era uma bola de sorvete de morango um bolinho de caramelo simplesmente divino e pepitas de chocolate crocantes a tudo isto devo realçar que o serviço foi de excelência o pessoal pressuroso e os donos simplesmente um casal gentil simpático e solícito que ao pedir-lhes autorização para fazer esta crónica sobre o restaurante deles aceitaram atónitos e encantados para terminar em beleza o balcão de recepção aos clientes é a parte da frente de um fusca pão de forma em suaves tons de bege que contrastava com a sobriedade da decoração

Aconselho-o leitor amigo a fazer a experiência certamente que não sairá desiludido pelo contrário quase aposto que sairá de coração pleno pois acredite que eu me senti algures numa cidade litoral pois a visão da ponte e do rio também ajudaram tenho ainda a impressão que foi tão gratificante para os meus filhos que o meu neto Daniel aproveitou para deixar o conforto do seio da mãe e nascer para que a avó se sentisse abençoada com a sua chegada bem como com um almoço tão especial

Manuela Rainho é moçambicana, septalescente assumida e reformada do ensino secundário. Desde muito nova que gosta de escrever. Foi sobretudo em Chaves, onde reside há cerca de 37 anos, que se iniciou como cronista e articulista de opinião. Este tipo de crónicas, que agora começa, pretende ser uma homenagem a grandes escritores que admira profundamente: José Saramago e Luís Sttau Monteiro.

OPINIÃO | Crónica da Nélita
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