quarta-feira. 28.09.2022

OPINIÃO | Crónica da Nélita

De há uns tempos a esta parte as cachaporradas a bordoada vêm de todo o lado a esmo e traduz-se num desencanto que se vai instalando subliminarmente sem que cada um de nós se aperceba o que – quanto a mim – conduz a um estadio de exaustão de desencantamento e fadiga que leva a questionar se valerá a pena uma pessoa ser inteligente solidária empática compassiva ou procurar que cada conflito cada decepção sejam interpretados como formas de aprendizagem ou crescimento interior por isso esta crónica leitor assíduo vai funcionar assim a modos como desabafo e provavelmente não lhe trará qualquer tipo de consolo ou o leve sorrir dado que «isto» está mesmo bichoso e o ponto de saturação a chegar ao limite se se perguntar «mas que raio tenho eu a ver com isso?» dou-lhe carradas de razão mas o que quer há dias assim em que o cinismo cívico do politicamente correcto mexe com aquilo a que chamo o direito à indignação se neste preciso momento se questionar sobre o que raio quer ela quer dizer com isto cá vai a primeira estocada a Academia de Artes de Chaves existe há uma parga de anos e o trabalho em prole da cultura musical que o Director Marcelo e o Maestro Luciano e muitos outros têm levado a cabo quase todos por amor são motivo de orgulho quer a nível de músicos que se tornam artistas reconhecidos quer enquanto Orquestra de Sopros da Academia que de uns anos a esta parte se tem evidenciado a nível nacional e estrangeiro até ter atingido o estatuto máximo de ser Campeã Mundial no World Music Contest nos Países Baixos ora isto aconteceu algures no início de Agosto e em vez de embandeirarmos em arco tal como quando o Chaves subiu à primeira divisão surgiram alguns agradecimentos quer aos músicos jovens estudantes da Academia quer ao seu professor o Maestro Luciano Pereira quer ao seu director que desde técnico de luzes a organizador dos eventos que decorrem no ano lectivo deita mão a tudo e ajuda sem qualquer preconceito – refiro-me obviamente a Marcelo Almeida que ao fim de muita luta conseguiu que o Ministério da Educação reconhecesse o curso de Gaita-de-foles como uma das áreas de estudo séria no âmbito musical e a minha alma ficou parva com a homenagem solene frente ao Largo da Câmara por causa dos equívocos neste fim-de-semana de mim para mim resmunguei «até que enfim Nélita chegou o reconhecimento oficial» embora nos múltiplos concertos que a academia oferece à comunidade a edilidade brilhasse pela ausência…

Li algures que andar a pé faz bem às situações de depressão pois ajuda a arejar o miolo ora esta manhã no decurso da caminhada ao passar pelo Centro Escolar de Santa Cruz reparo num número excessivo de pais que vinham deixar as criancinhas e como quem não quer a coisa aproximei-me eis que a alma me cai aos pés pois havia pais que ainda não tinham conseguido inscrever as crianças para o almoço na escola pois agora é tudo informatizado afinal em que país vive o Ministro da Educação nem com a experiência recente do tempo de pandemia se apercebeu que há assimetrias e que as mesmas têm de ser colmatadas pelas instituições tutelares ouvi ainda que faltam professores que só depois da abertura oficial da escola foram colocados que a Câmara se esqueceu de destacar elementos do pessoal auxiliar para controlar as crianças antes da chegada dos professores e que segundo parece o concursos das AEC’s não teve candidatos pois pretendiam pagar aos professores entre cinco e seis euros à hora… como deve calcular invoquei novamente o direito à indignação e enquanto me afastava pensei com os meus botões algo que deixo aqui como desafio para todos os pais que exijam à respectiva comissão que os representa uma Assembleia Geral com pais professores directores e representantes camarários deste departamento para deslindar este imbróglio e sobretudo para pressionar o Governo Central cujo Ministro da Educação tem o topete de dizer que os alunos têm todos os professores apesar de haver entre mil e dois mil horários escolares por preencher… isto é só uma sugestão depois deste desabafo o batimento cardíaco está quase normal mas a confiança nesta maioria para que concorri está a desencantar-me profundamente quer a nível nacional quer local não consigo dizer-lhe se votaria novamente como votei mas esta desumanização e teoria de não és gente mas mais um número tem-me f…..os miolos à séria é uma tristeza constrangedora quando os políticos confundem poder para desempenhar uma função com poder absoluto puro e cru é o mesmo que confundir filmes cómicos com desenhos animados

Manuela Rainho é moçambicana, septalescente assumida e reformada do ensino secundário. Desde muito nova que gosta de escrever. Foi sobretudo em Chaves, onde reside há cerca de 37 anos, que se iniciou como cronista e articulista de opinião. Este tipo de crónicas, que agora começa, pretende ser uma homenagem a grandes escritores que admira profundamente: José Saramago e Luís Sttau Monteiro.

OPINIÃO | Crónica da Nélita
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