segunda-feira. 05.12.2022

OPINIÃO | As palavras tangíveis: Todos os nomes

Todos os nomes. Aprendi que em cada um deles habita um poema. Em todos esses nomes. E fecho, por entre os dedos, estas letras. O caminho que adivinho não é plano. Hoje, na minha viagem de tributo que encetei por esses jardins da lembrança, aprendi-o. Demasiados nomes que cá já não estão. E fazem-me falta. Todos os nomes e os seus poemas.

Terminei há pedaço a última revisão de um manuscrito que vai ser lançado em livro nos primórdios do ano vindouro. Encerrando-o, dei comigo a perceber que tudo aquilo que ao longo de um tempo escrevi já não me pertence. Já não é meu. Dele talvez guarde no mais íntimo todas as notas soltas que fiei, nos despojos de tantas noites, num terno bloco de folha parda, e as arrume em segredo. Como se todas essas letras tecidas fossem somente planícies imensas. À espera de passos. Aqui, deste meu lado do monte, em seu topo, descanso por fim. E , por entre olhares, indico o caminho: Ide. Conquistai o segredo da terra. Destas planícies que vos dou!

Que não vos amedronte a viagem. Se nascemos foi para isso. Sermos viajantes. Encetarmos por nossos próprios passos o caminho. Despedirmos-nos do ventre e lançarmos jornada de modo a que a cada movimento, a cada metro vencido, nos tornemos mais pequenos aos olhos dos que nos veem. Até que, por fim, de nós não reste nada mais que não memória. Os que virão hão-de saber de nós a cada pétala, a cada pedra retirada para a berma, a cada voo de pássaro que anuncia a Primavera. E saberão dizer o nosso nome com os lábios secos a tropeçar em vocábulos. Neles ainda não cabem todas as explicações que o silêncio teceu nas margens do tempo. Nem da chuva que tantas vezes rega a noite para que se inundem os rios. E se, por essas estradas, alguém disser por nós, chegaremos sempre. Ainda que nos confundam com o caminho, com o frio ou com a bagagem.

Volto ao topo. Procuro-me. Busco, desesperado, nessas notas que semeei nessas várzeas adormecidas, as últimas letras que me devolvam os nomes. Tento decifrar, no meio de tantos gatafunhos, o calor ansiado no meio da cinza crua. Mas escondi-o tão bem que já não me recorda. Dessas letras que me lembram esse lume! As últimas vezes que chamei, entre abraços, pelo nomes que me faltam.

Noto que é tarde e já a noite me chama na alvorada do novo dia. Agora que, sensato, o arrumei, talvez encontre um dia esse bloco nessas gavetas escondidas na planície, quando dentro delas lhes limpe o pó ou procure uma travessia. Talvez o encontre quando não me faça falta. Ou quando me faça mais falta ainda.

PS: A ti que inicias viagem, se ainda os vires, chama por eles. Diz o seu nome com o coração em espanto e os braços ougados. Diz-lhes que ainda há um poema que fala por eles. Diz-lhes que o seu tempo nunca acabou.

E se há tempo nunca o podemos trair.

OPINIÃO | As palavras tangíveis: Todos os nomes
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