domingo. 05.02.2023

OPINIÃO | As palavras tangíveis: Todos os tempos

Começa-me a ser impossível dizer o que seja sem que invente um barco, luar ou a sua luz.

Novo ano. Chegou agreste, envolto numa torneira que alguém se esqueceu fechar no andar de cima desabando, em rio, sobre a laje do chão, caindo depois sobre a sala de visitas no rés do chão. Estragou o serão!

A vila, impaciente, após da ilusão da alegria, fecha-se sobre si mesma e arruma o pinheiro e os pirilampos. Para Dezembro, mesmo que chova copiosamente ou não, haverá mais.

Agora volta tudo. Tudo: O quotidiano calado, à espera que cheguem as andorinhas, o arrulho contra a água que cai desenfreada ou o frio ártico que nos beija e o remanso que se guarda em lugar seguro no fundo de uma gaveta esquecida.

Há dias, poucos dias, fui ao meu escritório buscar um papel que me havia esquecido de trazer para casa onde nele havia começado a rabiscar letras para este retrato. Não era tarde. Início de noite se tanto. Dantes, no tempo das quimeras, era essa mesma hora em que sairia de casa com com o meu irmão Miguel para irmos tomar um café ao “anabelle”. Dantes, recordo-me bem, o tempo corria lento. Desenhava-se assim, devagar!

Hoje (há dias convenha-se...), com as mãos encatrafiadas nos bolsos, desci pela avenida contemplando o silêncio que veste a terra. Vazia. Dormente. Só. Gasta pela ilusão dos dias. As montras, apagadas, a quem a partida das gentes cobre de pó, são quadros frívolos onde as luzes indiferentes dos faróis dos carros que cruzam as ruas refletem a solidão dos alçados.

Ninguém. Na rua não vi ninguém. Apressei o passo para que não parecesse um mendigo ou ladrão. Os candeeiros, desesperados, a quem o sol dos dias come a pele, pingam luz sobre o empedrado miudinho que o exílio dos meus sapatos violenta. O regresso a casa não importa. É inútil que o conte. As imagens são as cinzas desta terra e o silêncio dói como nunca doeu. Um espelho para amarga transparência.

A noite chega, lenta, adormecida. Antes voltasse o que não volta. Tudo: As sementes que no tempo guardamos em poiso seguro ao longo do mês de Agosto de hálito quente, silvestre, e que voltam agora como frutos que mordiscamos ao cair da tarde. O sal do corpo apaziguado pelas luzes dóceis da madrugada. O barulho das gentes. A cacofonia dos risos descontrolados, ébrios e inocentes. Aquele perder-se no rumor das noites longas, parque adentro, entre o cais do lago e o caminho das fontes. Pergunto: Não valeria essa água, a sede da água desse tempo, a vontade de adulterar esta viagem que hoje teci em busca de um papel que me havia esquecido?

Minha terra: Gritar o teu nome não me custa nada, ainda que te sinta longe e ausente. Grito-o para que tu me escutes e não me esqueças. Tatuo-o na laje que te adorna, na água virgem que borda o leito da ribeira e na outra que em milagre brota do teu ventre. Não o grito pelo ontem mas por toda a ânsia do amanhã. Aqui, hoje, com o luar que me veste a pele, sei que hás-de escutar todas as estrofes dos meus poemas. As palavras que te dou. Entende: Carregas nos braços a minha esperança e a promessa de um tempo novo.

Sabes que to aceito sem nenhuma pergunta.

Paulo Santos é natural de Vidago. Casado, pai de dois filhos desempenha profissionalmente funções de gestor de projetos num Atelier de Arquitetura. É membro da ALTM – Academia de Letras de Trás-os-Montes e da comissão instaladora da Academia Vidaguense. Publicou duas obras poéticas: Seara Mondada (2016, ed. Chiado Editora) e Seara Dourada (2018, ed. Chiado Books). Concluiu a obra Seara Despida com edição prevista para 2023. Em coautoria editou, em prosa, a obra: A Justa – 1º Centenário da morte de Eugénia Campilho Montalvão (2020, ed. Lisbon Internacional Press) e Bonifácio da Silva Alves Teixeira – O benemérito de Vidago (2021, ed. Lisbon Internacional Press). Também se irá iniciar, como autor, no universo da prosa com a edição o do diário No farol de meus dias, em fase final de conclusão e com edição prevista para 2022. A convite da editora e do coordenador do projeto, a sua poesia integrou a Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea Entre o sono e o sonho volume X (2018, ed. Chiado Books), volume XI (2019, ed. Chiado Books), volume XII (2020, ed. Chiado Books) e volume XIII (2021, ed. Chiado Books). Viu editado, em várias publicações, a sua obra em prosa e poesia, das quais destaca: 
Em poesia: Liberdade-Antologia da Poesia Livre - Vol. I (2019, ed. Chiado Books ) e volume II (2021, ed. Chiado Books ); Tributo - Homenagem a autores marcantes da literatura universal - Vol. 1 (2019, ed. Chiado Books); Quarentena – memórias de um país confinado (2020, ed. Chiado Books). Em prosa: Natal em Palavras - Coletânea de Contos de Natal (2018 e 2019, ed. Chiado Books); SMS – Coletânea de Micro narrativas Ficcionais - Volume I (2019, Ed. Chiado Books); Três quartos de um amor - Coletânea de cartas de amor –Volume III - (2020, ed. Chiado Books); Vozes Transmontanas - Coletânea 2020 da ALTM (2020, Edição ALTM). O poema da sua autoria “Beijo” integrou o tema “Timeless” do álbum “Melodic anthology” (2020) do músico Hélder Almeida.

OPINIÃO | As palavras tangíveis: Todos os tempos
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